General que comanda intervenção critica governantes do Rio .

Operação do exército na Rocinha: no plano estratégico, os militares demonstram
 preocupação com a reação popular às ações da intervenção e se queixam de falta de recursos
 – 
Márcia Foletto / O GLOBO
Intervenção vê manifestações como ameaça e reclama por
 ‘não haver liberdade de ação’
Em planejamento estratégico, generais reclamam de falta
 de apoio
POR CARINA BACELAR
RIO – Pouco mais de cinco meses depois de a intervenção federal
 na segurança ser decretada, o general Walter Braga Netto publicou
 ontem no Diário Oficial do Estado uma portaria com todo o 
planejamento estratégico do trabalho. No documento, o Gabinete 
de Intervenção Federal, que já foi alvo de críticas pela falta de 
transparência de seus planos, reclama que “não há liberdade de
 ação para a intervenção”.
Ao fazer um histórico sobre o problema da violência no Rio, o
 interventor não poupa críticas ao governo do estado. Diz que 
“a gestão ineficaz, fraudulenta e irresponsável dos recursos do
 estado implicou na insolvência do mesmo, agravado pela crise
 econômica nacional”. E completa: “Por tudo isso, não há liberdade 
de ação para as ações da intervenção federal, questionada desde 
sua decretação, seja por questões político-eleitorais, ideológicas ou
 de viabilidade técnica”.
O documento lista, em um “diagnóstico estratégico”, oportunidades
 e ameaças do ambiente externo para que a intervenção alcance
 seus objetivos. O gabinete classifica, entre as ameaças, 
“a realização de manifestações e protestos por parte de grupos
 sociais politizados”, e a “falta de apoio da população à intervenção”
. Esses dois fatores aparecem ao lado de outros como “atuação
 da criminalidade organizada”, “revoltas, rebeliões e fugas de 
presos”, “insuficiência de recursos” e “ocorrência de fenômenos
 e catástrofes naturais”, entre outros.
METAS E OBJETIVOS
O planejamento publicado ontem indica também os objetivos do 
Gabinete de Intervenção, com ações e prazos para implementação
 completa. São cinco objetivos: diminuição da criminalidade,
 recuperação da capacidade operativa dos órgãos, articulação de
 entes públicos, melhoria da qualidade de gestão do sistema 
prisional, e fortalecimento do “caráter institucional da segurança”.
 Nesse último quesito, uma das propostas da intervenção é
 “realizar formaturas e organizar eventos em todas as datas cívicas
 e comemorativas nacionais, estaduais e corporativas”.
Entre as metas, a maioria se refere ao aumento da capacidade
 operativa dos órgãos de segurança do Rio. Uma das metas, 
por exemplo, prevê a realização de inspeções de saúde em 
pelo menos 20% do pessoal licenciado do serviço da segurança
 pública, entre policiais e agentes penitenciários. Outra medida é
 empossar mil novos PMs aprovados em concurso. Também está
 previsto o retorno do pagamento do Regime Adicional de Serviço
 (RAS), a hora extra para policiais que permanecem nas ruas.
Para ampliar as tropas, a intervenção espera ainda reintegrar 10%
 dos profissionais cedidos, e estabelecer um quadro de “prestadores
 de tarefa por tempo certo” nos órgãos de segurança, uma espécie
 de serviço temporário.
O planejamento fala ainda em treinar “de forma customizada” 60%
 do efetivo dos batalhões especiais e das Unidades de Polícia
 Pacificadora (UPPs). E redistribuir os efetivos das UPPs para
 batalhões, o que os generais já vêm fazendo. A aquisição de vários
 materiais também está prevista, para recuperar blindados,
 recompor a frota das instituições e adquirir armamentos e
 equipamentos de proteção individual. As compras, entretanto,
 ainda estão em fase pré-licitatória: dos R$ 1,2 bilhão liberados
 pela União, R$ 500 milhões tramitam em “processos administrativos”
, segundo o Gabinete de Intervenção.
ESPECIALISTAS ANALISAM DOCUMENTO
Na avaliação da cientista política Walkiria Zambrzycki Dutra,
 que integra o Observatório da Intervenção e fez um estudo 
sobre o planejamento estratégico, a inclusão da pressão 
social no rol das “ameaças”, ainda que com conotação gerencial,
 é um dos pontos que chama a atenção no documento:
— É um ponto difícil de entender. A transparência na atuação
 das autoridades tem que ser uma bandeira. Não é uma ameaça.
 Obter informações na área da segurança pública, inclusive, é um
 desafio que a gente tem enfrentado ao longo do tempo.
Para José Ricardo Bandeira, presidente do Instituto de Criminalística
 e Ciências Policiais da América Latina, a classificação das críticas
 da sociedade e de movimentos sociais e políticos como ameaças, 
de forma negativa, denota medo da reação popular aos atos da 
intervenção.
— Existe um certo medo da opinião pública, o que é normal, mas
 isso é mais uma justificativa para o insucesso. A intervenção
 continua priorizando a política do enfrentamento, e, como isso 
não mudou, logicamente a opinião pública vai se voltar contra 
a intervenção.
Para Leonardo Vizeu, professor de Direito Constitucional da 
Fundação Getulio Vargas (FGV) com especialização em segurança
 pública, essa parte da portaria contém um desabafo dos
 interventores em relação às críticas:
— Parece-me um desabafo pelas criticas que estão recebendo.
 Há falta de regras adequadas, falta de apoio da sociedade, 
excesso de críticas, somada à ausência dos resultados esperados.
Em nota, os interventores disseram que “todas as ações da
 intervenção federal estão pautadas pelo princípio da legalidade, independentemente de qualquer tentativa de interferência”.
 “Em relação às ameaças, estão no contexto de uma ferramenta 
de planejamento (Matriz Swot) que permite diagnosticar 
estrategicamente as oportunidades e ameaças no ambiente
 externo que possam vir a impactar, caso ocorram, o cumprimento
 dos objetivos estratégicos”.
‘AMEAÇAS EXTERNAS’ LISTADAS PELO COMANDO DE
 INTERVENÇÃO:
FALTA DE APOIO:
“Falta de apoio da população” está entre os itens. O “baixo índice de credibilidade” das instituições de segurança do Rio também
MANIFESTAÇÕES E PROTESTOS:
“Realização de manifestações e protestos por parte de grupos sociais
 politizados” é considerada um risco em potencial para a intervenção
A FORÇA DO CRIME ORGANIZADO:
“Atuação da criminalidade organizada e violência urbana de 
qualquer natureza” prejudica a intervenção, diz o documento
COMOÇÃO POPULAR:
“Crimes de grande repercussão e comoção pública” também 
são citados como ameaça. A vereadora Marielle Franco foi morta
 no início da intervenção
ÍNDICES DESFAVORÁVEIS:
“Aumento dos índices de violência no estado durante a vigência 
da intervenção federal” é um dos itens citados no plano estratégico
NATUREZA IMPLACÁVEL:
Os generais levam em conta que as forças da natureza podem 
atrapalhar: “Ocorrência de fenômenos e catástrofes naturais”.

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