A crise ganhou um novo componente: Farda
6 de março de 2016
A crise ganhou um novo componente. E ele veste
farda e pilota tanques
Ricardo Noblat
que marcou a escalada preocupante da crise política que abala o país e ameaça
derrubar o governo.
A crise ganhou um novo componente. Ele veste farda e tem porte de arma.
Sua entrada em cena, ontem, foi o fato mais importante do dia em que o país quase
parou, surpreso com o que acontecia em São Paulo.
Não é comum ver-se um ex-presidente da República, o primeiro operário entre nós
a chegar ao poder, ser conduzido por agentes federais na condição de investigado
em bilionário escândalo de corrupção.
Nunca antes na história deste país...
O episódio serviu para demonstrar a solidez de uma democracia reinaugurada por
aqui há apenas 31 anos. A lei deve ser igual para todos. Um ex-presidente não merece
tratamento especial.
O receio de que a ordem pública virasse desordem foi o que assustou os militares,
levando-os a se manifestarem por meio dos canais disponíveis para isso. Há muito
que eles não procediam assim.
Um batalhão do Exército, em São Paulo, foi posto de sobreaviso caso os protestos
contra e a favor de Lula resultassem em violência, e as polícias militar e civil perdessem
o controle da situação.
Geraldo Alckimin não foi o único governador avisado de que poderia contar com a
ajuda do Exército se pedisse ou se a presidente da República a autorizasse.
Integrantes do Alto Comando do Exército telefonaram para os governadores dos Estados
mais sujeitos a conflitos entre militantes políticos e os preveniram para a necessidade de
manter a paz social.
O elenco de autoridades alcançadas pelos telefonemas de generais foi mais amplo.
E incluiu ministros de Estado e líderes de partidos, de quase todos os partidos. Os do PT
ficaram de fora.
A tensão entre os generais foi desatada quando militantes políticos se agrediram diante
do prédio onde Lula mora em São Bernardo. E atingiu seu pico com o discurso de Rui Falcão,
presidente do PT.
Enquanto Lula era interrogado na delegacia da Polícia Federal no aeroporto de Congonhas,
Falcão pregava a ida para as ruas dos adeptos do PT e a realização de manifestações ruidosas.
Foi um duro discurso, embora pronunciado no tom ameno que caracteriza as falas de Falcão.
De imediato, as várias instâncias do partido começaram a se mobilizar em obediência à
nova palavra de ordem.
Até então, a máquina do PT parecia inativa, perplexa. No twitter, por exemplo, os termos
mais em uso se referiam à prisão de Lula. Nas horas seguintes, os termos mais populares
passaram a ser “golpe” e “ruas”.
Os generais estão temerosos com a conjugação das crises política e econômica e com
o que possa derivar disso. Cobram insistentemente aos seus interlocutores do meio civil
para que encontrem uma saída.
Não sugerem a solução A, B ou C. Respeitada a Constituição, apoiarão qualquer
uma – do entendimento em torno de Dilma ao impeachment ou à realização de
novas eleições. Mas pedem pressa.
Por inviável, mas também por convicções democráticas, descartam intenções
golpistas. Só não querem se ver convocados a intervir em nome da Garantia da
Lei e da Ordem como previsto na Constituição.
O Globo/UNPP
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